A natureza do negócio e a administração financeira

Uma das primeiras lições que os gestores da área financeira aprendem no ofício é compreender a natureza específica do segmento no qual o empreendimento opera; suas peculiaridades e necessidades visando obter consistentemente lucro e garantindo recursos que permitam sua expansão contínua.

No final do dia o que conta é ganhar dinheiro mantendo a empresa sadia e, preparada para avanços na conquista de mercados, gerando emprego e cuidando de sua perenidade, mas…não dá para utilizar mesmas estratégias financeiras em apoio aos planos da alta gestão nos diferentes ramos de atividade empresarial. É obrigatória a “customização” das iniciativas em Finanças em alinhamento com o perfil do negócio e obediência às expectativas dos acionistas e/ou donos.

Na mais recente edição da revista “Melhores & Maiores”, é possível observar que embora algumas empresas estejam operando com melhor resultado comparativamente a outras – e isso tem relação também com a qualidade da gestão – é nítida a diferença em alguns indicadores de desempenho financeiro levando em conta os vários segmentos. Veja só o que foi apresentado nessa publicação, na mediana, das melhores empresas de alguns setores:

Setor                    Rentabilidade % (*)          Liquidez Corrente (**)

Bens de Capital                   3,2%                                                           1,11

Farmacêutico                       7,4%                                                           2,31

Papel e Celulose                    5,1%                                                          1,38

Varejo                                   10,4%                                                          1,45

(*) rentabilidade = lucro líquido ajustado sobre patrimônio líquido ajustado

(**) liquidez = realizável a curto prazo/dívida de curto prazo

Interessante notar que o setor de bens de capital teve, na média, rentabilidade equivalente a 1/3 do registrado no varejo, o qual de fato nessa reduzida amostra de segmentos é o único a apresentar dois dígitos de lucro sobre patrimônio (10,4%).

Todos nós sabemos que a indústria de bens de capital, de fato, têm sido um dos ramos mais afetados pela crise econômica no país, mas isso também tem relação com o setor. Certo? Afinal quando a demanda cai os investimentos na expansão de fábricas são interrompidos comprometendo novas encomendas.

O setor farmacêutico, com base nas empresas que responderam à pesquisa da revista e foram listadas como as melhores, apresentou bom resultado com 7,4% de rentabilidade e índice de liquidez bem confortável superando a casa de 2!

O ambiente da economia não só no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo, é algo que também causa distúrbios na condução dos negócios. Claro está, no entanto, que quando ocorre crise inibindo a demanda de bens – duráveis e não duráveis – em alguns segmentos a queda ocorre primeiro, enquanto em outros, só mais tarde. Um exemplo típico é o setor de embalagens – papel ondulado – que usualmente sinaliza para o mercado em geral quando uma crise se avizinha ou está se encerrando.

O gestor financeiro precisa saber do impacto que os ciclos da economia podem causar ao negócio muitas vezes permitindo antecipar tendências e até medir, com certo grau de certeza, o tamanho da queda na atividade. O “radar” tem de ficar vigilante!

Uma maneira de desenvolver a sensibilidade aos ciclos econômicos é a atuação com outras áreas da empresa, como Vendas e Marketing, participação em seminários de foco na economia e muita, mas muita, leitura dos principais indicadores publicados no país e fora dele afinal nós estamos em plena era da globalização. Não é aconselhável desprezar o que acontece nos mercados mundo afora!!

Os setores de atividade industrial; do agronegócio, e também do varejo são afetados de modo diferente relativamente ao comportamento dos preços e custos.

Qual é a implicação em custo, no setor de papel e celulose, se o preço internacional do petróleo sobe? Difícil precisar, certo? Ou ao menos não há relação direta mensurável.  Já na aviação comercial as companhias aéreas extremamente dependentes de energia consumida na forma de querosene tem o preço do petróleo como um dos elementos de custo mais importante do setor, senão o principal!

Ainda no petróleo é notória a importância de sua precificação quando se considera realizar investimentos de expansão na produção. Se os preços caírem acentuadamente e persistirem por bom tempo em baixa o apetite das petrolíferas em investir na exploração de novos poços será menor, ou até inexistente, devido ao baixo retorno, se algum for vislumbrado. Essa questão, com certeza, ronda os escritórios de Petrobrás; Exxon ou BP.

No agronegócio há grande sensibilidade quanto ao comportamento dos preços das commodities no mercado mundial que afetam diretamente as receitas e exigindo ações para proteger os ativos e/ou aproveitar o momento vendendo a produção na alta. Claro, o mercado precisa estar demandando, ok? Nesse segmento específico as ferramentas em Finanças foram aperfeiçoadas ao longo das últimas décadas sendo corriqueiro “blindar” o negócio com operações de hedge, notadamente nas empresas que se dedicam à exportação de grãos.

É usual a contratação de hedge de moeda e/ou commodities no varejo? Não! O gestor financeiro aqui não deve se preocupar com isso. Por outro lado quando uma empresa de varejo trabalha revendendo material importado a oscilação da moeda é vital podendo destruir o negócio caso não seja realizada uma ação preventiva com hedge financeiro, por exemplo. É caso a caso e, lógico, depende da importância das importações no mix do negócio.

Existem ainda as questões de mercados regulados, como na área de energia. O arcabouço tributário impactando de modo diferente os diversos setores da atividade empresarial é outro fator a ser considerado e entendido.

Como discutido os setores de atividade empresarial apresentam características diversas e para o gestor financeiro contribuir positivamente no sucesso do negócio é preciso conhecê-las bem. Com esse entendimento e estando a área financeira instrumentalizada com recursos humanos; ferramentas de gestão; modelos de análise e simulação de dados e tendências meio caminho estará andado para que o setor de finanças preste excelente serviço ao negócio como um todo.

Pense nisso!

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