A economia na pandemia (3) – Serviços e Comércio

Neste terceiro texto abordando a situação da economia brasileira em tempos de pandemia o foco é o setor que representa a maior porção do PIB.

O setor de serviços significa quase 75% da produção nacional. Na verdade, segundo dados mais recentes do IBGE, no ano passado, o setor representou 73,9% do PIB.

Veja gráfico abaixo mostrando que o setor de serviços nos últimos anos abocanhou uma parte ainda maior do PIB.

Do ponto de vista do emprego, o setor também contribui muito. De acordo com a PNAD do IBGE são cerca de 64 milhões de brasileiros dedicados às diversas atividades classificadas como “serviços”.

E quais são essas atividades?

  • Serviços prestados às famílias: alojamento, alimentação, atividades culturais e esportivas, serviços pessoais, atividades de ensino, saúde, serviços domésticos
  • Serviços de informação e comunicação: telecomunicações, TI, agências de notícias…
  • Serviços profissionais, administrativos: atividades jurídicas, contábeis e de assessoria; publicidade, arquitetura e engenharia, seleção e locação de mão de obra; agências de viagens e operadores turísticos; segurança e transporte de valores; serviços para edifícios
  • Transportes, armazenagem e correio
  • Atividades imobiliárias
  • Comércio em geral e serviços de manutenção e reparação
  • Outros serviços: aqui se enquadram serviços de seguros; esgoto coleta e tratamento de resíduos, por exemplo.

Como de resto para a economia brasileira, o setor de serviços também apresentou quadro adverso ao crescimento nos últimos anos. Observe o gráfico abaixo:

Mais recentemente, as restrições de mobilidade e de negócios impostas para o enfrentamento à pandemia da Covid 19 a área de serviços sofreu forte impacto em todo o mundo e não foi diferente no Brasil, como foi evidenciado na pesquisa do IBGE – PMS – Pesquisa Mensal de Serviços.

Até abril/2020, comparativamente a meses anteriores, o que se registrou foi queda acentuada, como mostra o quadro abaixo:

A situação se torna ainda mais preocupante ao considerarmos que a economia brasileira, e isto inclui o setor de serviços, já vinha debilitada e começando tímida recuperação a partir da segunda metade ano de 2017.

Observe a série histórica quadrimestral (janeiro/abril) do gráfico da série histórica da Pesquisa Mensal de Serviços a seguir:

Resumindo: o ritmo menor de queda em 2017 e certo alívio de crescimento zero em 2018 e +1% em 2019 agora se reverte para -4,5%!

É esperado que a partir de maio e junho, e mais intensamente no segundo semestre, o ritmo dos negócios deve apresentar sinais positivos, porém não é possível imaginar a tal de recuperação em “V”. O que você acha?

Uma leitura mais atenta de outros dados do IBGE dá embasamento a esta expectativa de recuperação em “U”, afinal alguns subsetores como restaurantes, hotéis, bufê apresentam queda de volume acumulado em 2020 de 23,6% versus mesmo período do ano passado.

Por outro lado o sub setor de transportes que inclui: rodoviário coletivo de passageiros, aéreo de passageiros, metro ferroviário de passageiros e até de cargas teve queda de 4,6% no primeiro quadrimestre deste ano comparativamente ao ano de 2019.

Outro sub setor de serviços profissionais e administrativos mostrou diminuição de 6,3% nos negócios no período janeiro/abril versus mesmo período de 2019.

A diminuição dos negócios e a incerteza sobre como se dará a “liberação” das iniciativas de isolamento social e de como as famílias reagirão diante de maior “liberdade” de contato social, apesar dos estímulos contidos nas medidas do governo federal para inibir o desemprego, tiveram já na PNAD do trimestre fevereiro/abril 2020 impacto no nível do emprego como notamos no quadro a seguir:

O setor de serviços no período fevereiro/abril 2020 comparativamente a fevereiro/abril 2019 mostrou diminuição de 1,6 milhão no número de pessoas ocupadas, ou 2,4%. A nova pesquisa PNAD para o trimestre março/maio 2020 será publicada na próxima semana e deve mostrar um quadro pior do emprego em todos os setores e, lógico na área de serviços também.

Sabemos que o setor de serviços é composto por um universo de empresas de variados portes, porém predominam aí muitos pequenos empreendimentos e cuja situação financeira já vinha preocupando após anos magros vividos em decorrência da recessão instalada na economia nacional e cuja recuperação era tímida.

Neste sentido vale atentar para os registros da Serasa Experian sobre o número de Recuperação Judicial Deferida mostrando que só agora chegávamos a níveis de abril 2015 depois de difícil travessia nos anos de 2016, 2017 e 2018:

Os números de maio/2020 ainda não foram disponibilizados pela Serasa, mas é possível imaginar que a situação vai piorar e muitas empresas, sobretudo as micro e pequenas, devem simplesmente fechar as portas. Está claro que este é o universo total: agropecuária, indústria e serviços, certo?

E as que sobreviverem, como “tocarão” a vida adiante?

Um ponto importante, e de natureza estrutural, é a questão da produtividade do trabalho no Brasil e no setor de serviços em particular.

De fato, o setor não apresentou nos últimos anos melhoria nos índices de produtividade do trabalho como bem demonstra o quadro a seguir construído a partir de dados do “Observatório da Produtividade” publicados pela FGV/IBRE:

Está evidenciada queda de 34,1 no primeiro trimestre de 2013 para 31,4 no primeiro trimestre deste ano de 2020… E note que a queda foi consistente ano a ano.

É agora momento de as empresas fazerem algo para melhorar a produtividade com ações de racionalização dos processos buscando, mais do que nunca, “fazer mais com menos”. Vale aqui a adoção de práticas na área de informática e também de migração de boa parte das vendas da loja física para o meio eletrônico. Sim, o comércio eletrônico continua crescendo muito em nosso país e a ambiente de isolamento social imposto pela pandemia motivou ainda mais este caminho para as vendas.  Este é um caminho sem volta.

Antes de tudo, porém, é recomendável cuidar bem da situação de caixa e dos estoques naqueles setores mais dependentes da alocação de valores importantes em capital de giro.

Vale renegociar as dívidas. Isto é para ontem! A boa notícia aqui é que os juros bancários diminuíram nos últimos anos e hoje a taxa Selic a 2,25% a.a. – a mais baixa da história – deve no médio prazo provocar diminuição ainda maior do custo do dinheiro na ponta do crédito.

Os investimentos em estrutura física, como reformas de espaço físico, devem ser deixados para outro momento… A não ser que tragam redução de gastos com aluguéis ou diminuam despesas com logística e movimentação dos estoques, por exemplo.

O portfólio de produtos deve passar por novos estudos e reflexões colocando foco naqueles itens que trazem mais retorno e lucratividade no curto e médio prazo.

Pense nisso!

Revisão de texto: Virgínia De Biase Vicari

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