A economia na pandemia (2): produção industrial

A pandemia do coronavírus gerou terrível pânico no mundo ocidental. E o modo como a maioria dos países resolveu enfrentá-la, devido à falta de antídoto ou vacina, foi o isolamento horizontal e, em situações mais drásticas, o “lockdown”.

As economias sofrem impacto negativo importante e vão levar um bom tempo para se recuperarem. É nisso que todos apostam. Não há prognóstico sólido para o retorno às atividades de produção e comercialização aos níveis dos últimos dois anos, por enquanto.

Diante do cenário já em vigor aos gestores caberá encontrar saídas para a sobrevivência com visão embaçada para o curto e médio prazos. A COVID-19 é um divisor de águas, gerando além de mortes também miséria, e perda de valor importante aos ativos.

A situação brasileira também é muito complicada, não há dúvida! Afinal, mal estávamos retomando o crescimento quando esse ciclo foi interrompido abruptamente.

Observe, no gráfico a seguir, qual foi o comportamento do PIB nos últimos três anos:

Na média anual de três anos, o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro cresceu apenas 1,2%, e não foi por falta de contribuição do agronegócio, que fez +4,9% na média. O setor de serviços, que representa entre 60% e 70% da produção nacional, registrou crescimento de 1,2%, na mesma média anual dos últimos três anos. Por fim, a indústria se arrastou, com aumento médio anual da produção de 0,2%.

O Fundo Monetário Internacional publicou, no início do mês de abril, números revisados para o PIB dos países em 2020. No quadro a seguir há uma comparação dos resultados reais de 2019, a previsão para o ano de 2020 (publicada em janeiro e a mais recente).

Esse é o divisor entre as águas menos revoltas, quando pouco se sabia do estrago provocado pelo coronavírus na China, e o cenário pós-COVID-19 se espalhando no mundo ocidental:

O crescimento do PIB mundial médio em 2019 foi de 2,9%, com destaque para China, Índia e EUA. Enquanto isso, a revisão de janeiro 2020 demonstrava confiança de maior crescimento (+3,3%) e, naquele momento, os destaques foram Índia, Rússia, Brasil e Europa.

A publicação do FMI “pós-COVID-19” derruba o prognóstico de crescimento para diminuição média global de 3% comparativamente à produção global em 2019. Todos perdem, com a Europa saindo de +1,2% para -6,7%, e Índia e China com PIB caindo da média de +6% para algo perto de +1,5%.

E o Brasil?

Nosso país, pelo olhar dos economistas do FMI, ao invés de crescer 2,2% em 2020, pode ter um PIB negativo em 5,3% – um “gap” de 7,5%. Dramático, não é mesmo?. Isso significa voltarmos mais de três anos no tempo. Muita perda de renda e de valor de ativo.

Como as estatísticas e o estudo têm defasagem de ao menos um mês, ainda não há números indicando claramente a perda do PIB nacional desde o início do isolamento horizontal. Porém, observe o quadro abaixo divulgado pelo IBRE FGV relativamente ao IAE (Indicador de Atividade Econômica).

Os dados incluem o mês de março/2020, quando observamos, no último decêndio, a entrada em vigor do isolamento horizontal nos estados e municípios brasileiros. Neste março a queda da atividade econômica foi de 5,1% comparativamente a fevereiro/2020:

É à indústria nacional que este texto vai se dedicar. Já fragilizada, como fica com o bloqueio generalizado das operações? E como se dará a recuperação? Todos os setores industriais sofrerão o mesmo golpe? Claro que não! Porém, em menor ou maior grau, medidas amargas e ações estratégicas precisarão ser discutidas e executadas.

Haverá a derrocada de muitos dos empreendimentos industriais, sem dúvida. E aquelas empresas que já vinham com dificuldade agora, muito provavelmente recebem uma pá de cal eliminando qualquer possibilidade de sobrevida.

O PIB da indústria, quando detalhado por setor, teve a seguinte evolução nos últimos três anos:

É possível imaginar que os setores industriais enquadrados como eletricidade e gás, extrativa mineral e construção sofrerão menos com a paralisia instalada no combate à COVID-19. A extrativa, por exemplo, continuará colocando boa parte da produção no mercado externo, ainda que a China cresça menos. A construção, embora dependente de investimentos públicos, havia retomado crescimento nos setores de edificações e assim deve continuar – em menor ritmo, mas com sinal positivo. O maior desafio do setor industrial, sem dúvida, reside na indústria de transformação. E é dele que iremos falar aqui por diante.

Outro relatório divulgado periodicamente pela FGV – Sondagem da Indústria – avaliou e comparou o número de turnos trabalhados em abril/2020 versus mesmo período de anos anteriores no indicador denominado NUCI (Nível de Utilização da Capacidade Instalada). Observe na lista a diminuição média no número de turnos:

Veículos automotores -75,7%;

Couros e calçados -54,2%;

Derivados de petróleo -35,5%;

Alimentos, Celulose e Papel, Máquinas e Materiais Elétricos ao redor de -2%

O único segmento a mostrar crescimento nos turnos de produção foi o farmacêutico, com +20,3%.

Não fica muito difícil entender que a diminuição dos turnos de trabalho se deu pela imposição do isolamento social, mas, também, devido à interrupção das atividades comerciais em lojas físicas e grandes centros de comercialização (shopping centers). Se não há como escoar a produção, não há porque se produzir. Simples assim!

Abaixo, merecem destaque dados colhidos junto ao IBGE – Pesquisa Industrial Mensal –, com a variação mensal da produção em março/2020:

Indústria em geral: -9,1%; Produtos alimentícios: -0,5%; Indústrias extrativas: -1,6%; Metalurgia: -3,4%; Máquinas e equipamentos: -9,1%; Produtos de borracha e plástico: -12,5%; Produtos de madeira: -16,1%; Bebidas: -19,4%; Produtos têxteis: -20,9%; Móveis: -27,2%; Veículos automotores, reboques e carrocerias: -28,0%; Preparação de couros e fabricação de artefatos de couro: -31,5%; Confecção de artigos do vestuário e acessórios: -37,8%

Vai continuar nesse nível?

Bem…os números oficiais de abril ainda não são conhecidos, mas é fácil imaginar que o cenário de queda da produção foi ainda maior uma vez que as restrições impostas pelo isolamento social aconteceram a partir da última semana de março.

A partir de meados de maior/2020, muito provavelmente, haverá diminuição dessas perdas de produção, e com mais intensidade a partir da metade do segundo semestre. Quem sabe? De todo modo, a lista acima dá boa ideia sobre os segmentos da indústria de transformação mais expostos aos efeitos da pandemia sobre a vida das pessoas e do comércio.

Claro que estamos falando de mercado interno. E a exportação?

Lamentavelmente, desde sempre, a participação dos bens semimanufaturados e manufaturados na pauta de nossas exportações não é a mais importante. No ano passado, por exemplo, as exportações somadas de semimanufaturados e manufaturados alcançou 47% do total.

É bem verdade que a pandemia deve afetar o comércio exterior, mas se considerarmos o atual nível de taxa de câmbio, o esforço de exportação pode ajudar não só na retomada da atividade industrial como também na lucratividade e/ou melhor absorção de custos fixos por parte das empresas. Afinal, é inegável que nosso país está mais competitivo.

Esse nível de taxa de câmbio também pode ajudar as empresas industriais brasileiras na recuperação de fatia do mercado interno, pois as importações estão bem mais caras comparativamente às cotação cambiais de meados de 2019.

Então, os volumes de produção podem e devem se recuperar pelo lado da demanda interna, mas tudo indica que será uma recuperação lenta.

A desorganização da produção também é um grande desafio e pode inibir um retorno mais firme da indústria. É bom lembrar que as empresas, sobretudo as pequenas e médias, atravessaram um período difícil devido à recessão econômica que se iniciou no segundo semestre de 2014. É de se supor que parte delas entrou em recuperação judicial.

Assim sendo, o fortalecimento da rede de suprimento é algo que deve tomar a atenção do gestor do negócio. Fique de olho nisso.

Temporariamente, o governo federal fez concessões importantes para as empresas evitarem demissão de pessoas. Além de inibir maior crise social, esses auxílios desafogam o caixa das empresas, além de permitir a manutenção de funcionários qualificados e treinados.  Outras iniciativas foram a postergação de pagamento de impostos e encargos sociais sobre folha, negociação de dívidas bancárias, linhas de crédito com prazos de amortização mais longos e por aí vai.

É tempo de cuidar do caixa todo dia!

Outras medidas também estarão ocupando o tempo dos empresários e executivos profissionais da indústria como maior empenho em negociar contratos de serviço para diminuir os custos e despesas.

Os investimentos de capital que estavam planejados devem passar por rígida análise de continuidade ou não. Como vimos, na maior parte dos segmentos industriais, a capacidade instalada hoje é baixa. E vai demorar algum tempo para o retorno ao nível de utilização registrado anteriormente à pandemia se instalar em nosso país.

Teremos pela frente tempos difíceis na indústria, mas esse ambiente também trará boas oportunidades para fazermos coisas diferentes e eficazes.

 Ao trabalho!

Revisão de texto: Virgínia De Biase Vicari

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