Por que os novos negócios fracassam? O planejamento e a execução

Observe o quadro abaixo:

Pois é, o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) coletou dados até o ano passado sobre as empresas de faturamento até R$ 4,8 milhões/ano em atividade ao longo dos últimos dez anos e, para surpresa de ninguém, houve notável crescimento do empreendedorismo em nosso país, especialmente para o MEI (Microempresário Individual).

De um lado, é fato que, no Brasil, pessoas estão empreendendo cada vez em maior número, e a própria crise econômica, que teve início em meados de 2014, acabou ocasionando “novos entrantes”, buscando oportunidades para gerar renda, visto que as vagas de emprego ficaram em baixa.

Em 2010, as empresas chamadas de micro e pequenas somavam 4,5 milhões e mais que triplicaram até o ano passado, atingindo a marca de 15,4 milhões de firmas. Em taxa composta anual, estamos falando de um crescimento da ordem de 14,6% ao ano, portanto, nada desprezível.

Todos foram ou estão sendo bem-sucedidos nos empreendimentos que iniciaram? Não se sabe. O que sabemos é que a taxa de mortalidade das empresas em nosso ambiente de negócios gira ao redor de 25% em até dois anos e não está muito distante do que ocorre nos EUA e em Israel, por exemplo.

O fato de nossos registros de fracasso de firmas nos primeiros dois anos de existência estar próximo do que acontece em economias desenvolvidas não quer dizer que estejamos bem. Você concorda? Quais seriam as causas mais claramente identificadas junto a empreendedores que encerraram os negócios em tão curto espaço de tempo?

Os entendidos costumam associar tal fenômeno a vários fatores, e o próprio Sebrae elenca, de modo geral, três grandes áreas:

  • Planejamento;
  • Gestão Empresarial,
  • Comportamento do Empreendedor.

Sem entrar no detalhe aqui, minha tendência é concordar com a leitura do Sebrae. Tanto que o objeto deste texto é uma reflexão sobre os fracassos chamando atenção para dois temas: a) planejamento; b) execução. O segundo pode ser associado, de certa forma, à gestão empresarial.

Ainda que o empreendedor desenvolva o negócio para obter sucesso, os estudiosos entendem que a descontinuação de um negócio pode ser uma fase importante do empreendedorismo.

Além disso, proporciona, na maior parte dos casos, importante aprendizado para os indivíduos envolvidos, cujas “lições” auxiliam no desenvolvimento de outras iniciativas, caso a “chama” do espírito empreendedor se mantenha acesa.

Por outro lado, o insucesso ao encerrar um negócio é custoso e difícil, e pode ser social ou culturalmente inaceitável, servindo para inibir outros interessados em se estabelecer por conta própria. Não é mesmo?

Nos últimos tempos, temos constatado que o avanço da informática e uma nova geração de consumidores têm provocado muitas iniciativas de empreendedorismo com o desenvolvimento de aplicativos que “facilitam a vida” tanto de pessoas como das empresas.

Aqui, acabamos por identificar casos de extremo sucesso com as famosas startups, chamadas de “unicórnios” pela capacidade de apresentar crescimento vertiginoso, tornando seus fundadores em milionários de uma hora para outra.

Esse é o lado mais avançado do empreendedorismo do ponto de vista de inovação, e na maior parte das vezes, está no segmento de serviços. No Brasil, temos vários exemplos de empresas que aqui nasceram, e também de outras que trouxeram para cá suas novidades.

É importante, no entanto, atentar para o fato de que a maior parte das novas empresas criadas – seja individual (MEI) ou pequena empresa de sociedade limitada – não são as tais “unicórnios”, mas daquela pessoa anônima que coloca os recursos de que dispõe em empreendimento, visto que não encontra mais espaço no mercado de trabalho. Essa é a realidade do empreendedorismo no Brasil, tenha certeza.

De fato, o glamour das startups unicórnios é para poucos. E saiba que parte delas também falha, ainda que tenham adquirido alguma musculatura ao longo da jornada.

Para alinhamento: o foco da discussão neste texto é a empresa individual ou pequena, de sociedade limitada, que se instala para oferecer serviços e/ou para atuar no comércio sem a identificação com o mundo das startups unicórnios. E é bom dizer: é a maior parte das 15,4 milhões contadas pelo Sebrae no final de 2019. Elas falham, e aqui vamos falar de duas áreas: planejamento e execução.

Estudos e pesquisas indicam que muitos empreendimentos têm dificuldade para dar certo – crescer e ganhar dinheiro – pelo simples fato de os empreendedores não terem devotado muita atenção para o tal do planejamento.

Não pense que são coisas muito sofisticadas, não. Algumas das falhas em planejar o novo negócio são a ausência de atenção a alguns pontos já identificados em pesquisas do próprio Sebrae, como os abaixo listados:

O empreendedor não levanta informação sobre o mercado, por exemplo. E aí cabem as seguintes perguntas:

Ele existe?

Qual seu tamanho potencial?

Quem são as atuais firmas que atuam no segmento?

Onde estão localizados os clientes a serem servidos?

O que eles desejam?

Como se dá a precificação do produto e/ou serviço?

Quem são os fornecedores?

Como é possível divulgar o novo empreendimento? E quanto custa fazer isso?

Quem vai “tocar” o dia a dia do negócio?

O empreendedor tem conhecimento prévio do ramo no qual pretende estabelecer a firma?

Qual a necessidade de contratação de pessoas? Qual deve ser a qualificação dessas?

Qual o investimento necessário para o negócio?

Quais os aspectos legais relevantes aplicáveis à firma?

Qual a necessidade de recursos financeiros para capital de giro? E o montante?

Quais são as fontes alternativas de financiamento? Quanto custa?

Qual o nível de vendas e margem bruta exigidos para cobrir as despesas fixas?

Qual o resultado e/ou lucro desejado?

Muitos, ao lerem a lista de perguntas, podem achar que são questões básicas. No entanto, análises de especialistas no universo do empreendedorismo brasileiro concluíram que a maior parte delas não foi devidamente levada em consideração.

Conclusão: é preciso investir algum tempo, refletir, calcular e desenhar um plano que inclua o máximo de respostas verdadeiras ao desafio a ser enfrentado na abertura do empreendimento. A isso se dá o nome de planejamento prévio. Tem de ser feito.

Ok, o plano está desenhado em detalhes e agora é “correr pro abraço”, certo?

Errado. Tão importante quanto o planejamento é sua execução e acompanhamento para  determinar saídas/desvios, caso algo não aconteça como esperado.

Aí vai a lista para reflexão do que pode ajudar para com o sucesso na execução do plano:

Medir os resultados rotineiramente;

Acompanhar as movimentações da concorrência;

Inovar processos e procedimentos;

Manter atualização sobre tecnologia no setor/segmento;

Investir em propaganda e divulgação;

Capacitar continuamente o quadro de pessoas;

Manter o caixa em equilíbrio;

Aperfeiçoar produtos e/ou serviços;

Construir e manter uma boa cadeia de fornecedores,

Rever e ajustar o plano de negócios.

Como vimos, aproximadamente 25% dos empreendimentos abertos encerram atividades em até dois anos, e não adianta colocar a culpa em outrem. Na verdade, na maior parte das vezes, o planejamento prévio mal feito e/ou não realizado e sua pobre execução determinam o fracasso.

Pense nisso!

Revisão de texto: Virgínia De Biase Vicari

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