E o empreendedorismo no Brasil, como vai?

Segundo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), com dados colhidos há quatro anos, os micro e pequenos empreendimentos correspondem a 27% do PIB nacional, são responsáveis por mais de  50% dos empregos formais, e somam 99% das empresas registradas em atividade no Brasil.

Sim, de fato, esses números não são nada desprezíveis e colocam o Brasil entre os países com maior representatividade de pequenos empreendedores na economia mundial. Já em relação à qualidade dos empreendimentos, não temos a mesma importância, e isto é razão suficiente para estudos mais profundos sobre aspectos que emperram ou prejudicam as atividades empreendedoras com efeito negativo sobre o crescimento econômico e a geração de emprego e renda.

Vamos falar mais sobre esses pontos nesta seção “Empreendedorismo” do blog ao longo do tempo, e por certo não faltarão oportunidades para reflexão e discussão de ideias.

O primeiro grande empreendedor brasileiro que se tem notícia foi o Visconde de Mauá, que era gaúcho e atendia pelo nome de Irineu Evangelista de Sousa. Foi responsável, nos tempos do Império, pela construção da primeira ferrovia em território brasileiro, e também foi dele a iniciativa de instalação da primeira fundição de ferro. O Visconde também fez importantes investimentos em infraestrutura. O grupo industrial que construiu atingiu seu auge em 1860, com negócios também em outros países, como França, Argentina e Estados Unidos da América, porém, ao que se sabe, morreu pobre e falido no ano de 1889.

Há que se destacar também outro grande nome de projeção nacional na questão do empreendedorismo: Francesco Matarazzo. Vindo da Itália com 27 anos e com algum dinheiro no bolso, iniciou as atividades empreendedoras no comércio de mercadorias importadas, e com grande sucesso construiu o maior grupo econômico industrial brasileiro, e sua fortuna foi estimada em 20 bilhões de dólares estadunidenses entre as décadas de 1920 e 1930. Foi também ele o primeiro presidente da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

É bom lembrar, em tempos mais recentes, de um imigrante judeu polonês que chegou ao Brasil perto de completar 30 anos de idade. Começou como mascate na Grande São Paulo, e com inovação e arrojo, vislumbrou oportunidades para a população de baixa renda no segmento de varejo e assim construiu a grande rede de lojas – Casas Bahia. O sucesso de seu empreendimento foi inclusive citado no livro lançado em 2002, “A riqueza na base da pirâmide”, do importante guru em Administração C. K. Prahalad.

Outro exemplo de sucesso no empreendedorismo brasileiro é o que reúne três executivos bem sucedidos do meio financeiro: Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, que têm se destacado pela determinação, arrojo e muito método para expandir os negócios no segmento industrial – bens de consumo de massa. Nesse caso, diferentemente de Mauá, Matarazzo e Klein, é sabido que o trio de empresários iniciou a jornada com nível razoável de capital, porém não há como negar que estes têm sido bem sucedidos na realização de seus sonhos de empreendedores – aliás, o livro lançado sobre eles em 2013 recebeu o sugestivo nome: “Sonho Grande”.

Empreendedorismo é bem isso: ideia, propósito, paixão, execução, entendimento do cliente, resiliência… E se tiver algum capital/dinheiro, tanto melhor, mas não necessariamente, certo?

Também quando se fala em empreender, não devemos ficar presos à “moda” de hoje, que tipifica empreendedorismo como iniciativa ligada às empresas de alto impacto e modelo escalável – as chamadas startups –, com o lançamento de produtos e serviços inovadores instrumentalizados com a adoção de recursos de informática avançados. Em outras palavras, a “loja da esquina” também tem por detrás a figura do empreendedor, e a ela deve ser dado valor e se oferecer ambiente de negócios amigável e oportunidades para capacitação e desenvolvimento.

Bem, é preciso reconhecer que em nosso país o empreendedorismo tem grandes desafios à frente. Isto é inegável, e para ilustrar um pouco esses desafios, seguem alguns comentários sobre estudos realizados no mundo acerca de empreendedorismo, os quais incluem também o Brasil.

 

GEM (Global Entrepreneurship Monitor):

Estudo promovido pela Babson College, universidade localizada no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, entidade reconhecida como líder na área de educação e formação de empreendedores.A proposta do trabalho é identificar oportunidades para estimular o empreendedorismo a partir da avaliação de doze pontos nos contextos: social, cultural, político, econômico, além das políticas de governo.

No Brasil,  o IBQP (Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade) e o Sebrae promovem a pesquisa, seguindo a metodologia da Babson e a última compilada foi divulgada agora em 2018, sendo referente a 2017. Foram estudados 54 países que somados representam 86% do PIB global e 68% da população.

No estudo, nosso país se destacou pela dinâmica do mercado interno e o alto grau de inserção do gênero feminino nas atividades empreendedoras, porém há pontos negativos importantes como: baixa ênfase no ensino de empreendedorismo nas escolas; a burocracia e complexidade do ambiente tributário e falta de suporte do governo aos empreendedores. Outra oportunidade aparece quanto à questão de aquisição e transferência de tecnologia que teve baixa avaliação.

 

GEI 2018: Estudo qualificado que classifica as nações quanto ao ambiente do empreendedorismo. O trabalho é realizado pela Global Entrepreneurship and Development Institute, com sede em Washington (EUA).

Na edição mais recente, que envolveu 137 países, foram avaliados 14 pontos, entre eles: capital humano, infraestrutura, inovação de produto, inovação de processo, internacionalização, concorrência, crescimento econômico, risco de capital, e por aí vai.

O Brasil foi classificado na 98ª posição, ficando atrás inclusive de alguns países da América Latina, entre eles: Argentina, México, Equador, Peru e, lógico, Chile. Muito ruim, não é?

Os cinco países em melhor colocação foram na ordem: Estados Unidos, Suíça, Canadá, Reino Unido e Austrália.

A melhor colocação do Brasil (20ª) se deu na categoria “Networking – Urbanização”, e também estivemos no segundo quartil quanto ao ambiente concorrencial (44ª).

Nosso país ficou muito mal da questão do “capital humano” – 132º –, e “internacionalização da economia” – 131º.

Como vemos, a partir deste trabalho da GEDI, há muito o que construir na questão da educação e capacitação da mão de obra, além da necessária maior inserção do país no comércio exterior.

Já sabemos bem das carências brasileiras que inibem o fortalecimento do empreendedorismo, mas olhando para o “copo meio cheio”, é importante destacar que hoje algumas entidades, como o Sebrae e a Endeavor, têm oferecido apoio aos empreendedores locais. Por outro lado, observamos empresas atuando como promotoras do empreendedorismo, exemplos dos bancos Itaú Unibanco e Bradesco, com suas aceleradoras Cubo e inovaBras respectivamente.

Finalmente, como o empreendedorismo é caminho importante para diminuição das desigualdades sociais e geração de emprego e renda, esse tema deveria estar presente na agenda das propostas de governo dos candidatos nas eleições brasileiras deste ano. Você concorda?

 

O Brasil precisa mais disso!

Revisão de Texto: Virgínia De Biase Vicari

 

 

 

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