O que falam os números e o que dizem os gestores (parte I)

Entre os meses de fevereiro e março se concentra grande quantidade de publicações de resultados financeiros e relatórios de administração das empresas de capital aberto. Tem material para todos os gostos.

Como podemos imaginar, os números do ano passado, comparativamente a 2015, na maior parte dos casos indicou deterioração dos resultados financeiros das empresas, independente do segmento ou indústria ao qual pertencem. A grave crise econômica e a incerteza política é o discurso comum nos relatórios publicados pela alta direção das companhias. E é um fato! Não é possível, portanto, ignorar que o encolhimento do consumo das famílias pelo aumento no nível do desemprego e queda real na renda e ainda a retração nos investimentos tanto do governo como do setor privado resultaram na queda do PIB próximo de 4%, número que deve ser oficializado pelo IBGE nos próximos meses. Além disso, a volatilidade da moeda brasileira contribuiu para “embaraçar” ainda mais o ambiente dos negócios.

A diminuição do mercado e a depressão dos preços, por outro lado, é excelente oportunidade para medir a qualidade do corpo diretivo e das pessoas das firmas e ainda avaliar se o modelo de negócio não precisa ser reformulado. Afinal, qual é a saída? Como mitigar os efeitos negativos nos resultados financeiros decorrentes de um mercado que ficou menor? Quais oportunidades podem ser exploradas para alavancar os negócios e fortalecer a empresa quando o mercado ficar mais “a favor”?

É bem verdade que as publicações recentes dos demonstrativos financeiros auditados e assinados pela alta direção das companhias focam o discurso muito mais no curto prazo, mas mesmo assim é possível avaliar se o negócio tem futuro ou se está comprometido colocando em risco a saúde da empresa, afinal as companhias abertas são obrigadas a seguir orientações padrão de registro contábil e o próprio mercado, leia-se a Bolsa de Valores, acaba precificando o desempenho do negócio afetando o valor das ações.

Aqui segue análise que preparei quanto ao setor de papel e celulose cujo perfil é típico B2B (business to business).

  1. Papel e Celulose – Contexto

No Brasil, foram produzidas mais de 18,5 milhões de toneladas de celulose no ano passado, e o país se coloca como o quarto maior produtor mundial, ficando atrás somente de Estados Unidos, Canadá e China. Tudo indica que a produção nacional em 2017 deslocará o Brasil para o segundo lugar. Temos por aqui muita competitividade na celulose de fibra curta processada a partir das plantações de eucaliptos, e em dez anos o aumento da produção foi de quase 60% resultante de pesados investimentos de capital e também em área de florestamento.

Importante dizer que a indústria de celulose destina quase 70% de sua produção à exportação, que no ano de 2016 atingiu 5,6 bilhões de dólares, queda de 0,5% em dinheiro, mas o volume foi 11,9% superior a 2015. O preço internacional da celulose caiu em dólares, afetando a receita no comércio exterior.

Selecionei três empresas do setor: Fibria, Klabin e Suzano:

  • Fibria: A empresa teve perda do valor da ação de 37,4% (dezembro de 2016 versus dezembro de 2015) quando, na média, o índice IBOVESPA cresceu 38,9% no mesmo período. As vendas em reais de R$9.614,8 milhões caíram 4,6% relativamente ao ano anterior, e a causa está no preço médio de exportação da celulose, levando em conta que expressiva parte da produção se destina ao mercado externo. De fato a 90% da receita da Fibria advém da celulose exportada.

A margem bruta caiu de 41,7% em 2015 para 26,1% em 2016. O lucro líquido, por sua vez, foi de 17,3% sobre a venda líquida no ano passado versus 3,5% de lucro registrado sobre a venda em 2015. A empresa reconheceu contabilmente ganhos significativos na linha de variação cambial e derivativos – típico de uma empresa que tem grande parte da dívida de financiamentos em moeda estrangeira. A margem EBITDA ajustada em 2016 alcançou 38,5% da receita líquida.

O endividamento de longo prazo aumentou em R$3.409 milhões para financiar expansão da área industrial. É bom esclarecer, no entanto, que 93% da dívida está concentrada no longo prazo e deste montante quase 70% vence a partir do ano de 2020.

A Fibria prevê ampliação de produção em 2017 da planta localizada em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul resultante de investimentos já realizados em 2016 e que terão continuidade neste ano.

  • Klabin: O modelo da empresa é um misto de venda de celulose, produção de embalagem de papel ondulado e sacos industriais, e ainda comercializa celulose com sua “concorrente” Fibria a partir da nova fábrica inaugurada em 2016 no município de Ortigueira, Paraná. As exportações são 40% da venda da Klabin. Essa mistura, de certa forma, contribuiu para resultados melhores no setor, com crescimento das vendas da ordem de 25% em 2016 (R$7.091 milhões), lucro bruto de 34% sobre a venda – também caiu em relação a 2015, que foi de 39% –, e o lucro líquido positivo de 35% no ano passado indica favorecimento ao resultado de variação cambial e derivativos, típico neste setor industrial.

A margem EBITDA ajustada de 32% ficou abaixo da registrada pela Fibria. Quanto ao endividamento a Klabin reporta aumento de 5% ou R$807,8 milhões comparativamente ao final de 2015, porém 85% deste está concentrado no longo prazo o que é recomendável neste tipo de indústria.

A ação da Klabin desvalorizou-se em 28% em dezembro de 2016 versus dezembro de 2015.

  • Suzano: Das três empresas, foi a que teve menor queda no valor da ação: menos 22,4% dezembro contra dezembro.

A receita líquida de 2016 alcançou R$9.900 milhões, ou seja, 3,3% a menos do que o ano anterior. O modelo da Suzano mistura exportação de celulose (55% do total da venda), exportação de papel (7% do total vendido) e venda de papel, que atinge 38% do total, sendo que destes, 70% ocorre no mercado interno. O mix seguramente favorece a Suzano, cuja margem bruta em 2016 alcançou 37,3%, com leve queda em relação a 2015 (39,5%).

O resultado financeiro líquido da Suzano foi positivo, atingindo R$1.692 milhões versus prejuízo no ano de 2015 de R$925    milhões. Também a Suzano foi beneficiada contabilmente por registro favorável de ganhos de variação cambial mais derivativos.

A margem EBITDA ajustada de 39,5% em 2016 foi a melhor entre as três empresas analisadas. A empresa reporta que a dívida com empréstimos e financiamentos, diferentemente de Klabin e Fibria, diminuiu em quase R$1.000 milhão, ou 6%, o que pode ser explicado por menos comprometimento de caixa com investimentos de capital (ativo fixo/plantas industriais). Quase 89% da dívida com empréstimos e financiamentos da Suzano é de longo prazo.

Comentário final: 2016 não foi um bom ano para indústria de papel e celulose, principalmente para aquelas empresas que mais dependem do comércio exterior, porém a competitividade dessa indústria; os investimentos realizados em expansão nas plantas industriais e a recuperação cíclica dos preços internacionais deve, em futuro breve, contribuir para recomposição de margens e melhoria na geração de caixa.

 

P.S. O próximo texto (II) será dedicado a B2C (business to commerce) – setor têxtil/vestuário.

Revisão de texto: Virgínia De Biase Vicari

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