Frustrações e desafios no aperfeiçoamento da Governança

O aprimoramento da governança no universo corporativo deve constar obrigatoriamente da agenda dos gestores de negócio mundo afora, sem dúvida!

Não sei se porque nos tempos atuais as gerações “policiam” mais os comportamentos dos agentes políticos e privados, ou se devido a facilidade da comunicação e rapidez como essa se dá nesse maravilhoso mundo da internet, mas o fato é que somos sempre chamados à atenção para desvios de conduta tanto no mundo político, o que não é novidade, como também no ambiente empresarial.

Uma leitura mais desatenta poderia nos fazer acreditar que não há ética, de modo geral, e que a situação é pior em nosso território, afinal somos ainda um país do Terceiro Mundo, certo?

Não é bem essa a situação!

A sociedade no mundo desenvolvido e, lógico no subdesenvolvido, mostra claramente fatos flagrantes de má conduta ética a prejudicar as pessoas causando danos morais e materiais. Muitos danos!

Aí novas medidas de contenção e correção de rumo são tomadas para, quem sabe, tudo ficar maravilhoso e à prova de falha. Não é bem assim! De fato o aperfeiçoamento da governança na política e nos negócios, e também no comportamento humano exige constante dedicação. Lições são aprendidas, mas outras oportunidades surgem para aperfeiçoarmos o que já existe.

É um processo!! E…devemos reconhecer que é possível melhorar e isso está acontecendo, embora seja muito difícil medir o progresso registrado até ontem, por exemplo.

No mundo dos negócios a mais recente má notícia é a penalização que empresas respeitáveis da Europa foram condenadas pela Comissão Europeia com multas que chegaram próximo a 3 (três) bilhões de Euros. Sim! Quase 12 (doze) bilhões de Reais!!

O escândalo revelado publicamente – caso de número 39824 da Comissão Europeia – envolve as montadoras de veículos comerciais, na verdade fabricantes de caminhões que são: MAN (leia-se Volkswagen); Daimler (leia-se Mercedes Benz); Iveco (leia-se grupo Fiat); DAF (da Norte Americana Paccar) e Volvo/Renault.

Todas essas empresas foram investigadas sob o regime da lei “antitruste” da Europa e punidas por comprovada e reconhecida prática de cartel!!! Incrível imaginar que empresas desse porte e tão respeitadas no mundo dos negócios tenham praticado, através de seus executivos, atos deploráveis. Para dizer o mínimo!! Mas fizeram, sim!

A conta de quase três bilhões de Euros na verdade foi diminuída, pois a MAN, por exemplo, que teria “denunciado” o esquema ficou livre da pena pecuniária. Além disso, todas as demais, em maior ou menor grau, tiveram o valor diminuído conforme critérios adotados pela Comissão Europeia. O total, grosso modo, que deveria ter sido aplicado supera 5 (cinco) bilhões de Euros!!

O delito cometido pelas empresas, através de seus executivos de alto escalão, referiu-se à acordos acertados em reuniões presenciais; encontros em feiras e até por meio eletrônico (e-maisl??) por quase catorze (14) anos.

As empresas alinharam iniciativas de definição de preço de produto; acertaram os calendários para introdução de mudanças na lei de emissões da comunidade Europeia desde a norma Euro III até à Euro VI (entrou em vigor no ano de 2014); e resolveram entre si repassar ao preço de venda todo o custo decorrente das mudanças tecnológicas. Isso aconteceu para as linhas dos caminhões com capacidade de carga superior a 6 (seis) toneladas, o que fato representa o “grosso” da frota Europeia.

Cadê a livre concorrência? Sem dúvida a má governança nesse caso simplesmente a ignorou e prejudicou os consumidores e adquirentes dos veículos. Em outras palavras as empresas não colocaram a mão no bolso para fazer as mudanças ditadas pela lei de emissões na atmosfera.

Tive a curiosidade de vasculhar alguns dos relatórios de resultado dos negócios dessas empresas e pouco encontrei que pudesse representar um “mea culpa” por infringir a lei da região com referência a essa punição. Também não observei qualquer vestígio de punição aos executivos que cometeram o crime. Assim, sem dúvida fica mais difícil imaginar que essa lição tenha sido aprendida. Tudo se resumiu a reconhecer no resultado financeiro o valor da multa aplicada. Ponto final!

No aperfeiçoamento da governança corporativa no mundo dos negócios cabe vigilância absoluta; investigação a qualquer sinal de desvio e punição aos responsáveis. Foi exatamente o que a Comissão Europeia realizou nesse caso da indústria montadora de caminhões. Não há espaço para descumprimento da lei, certo?

A cada anúncio de desvio de conduta de pessoas, no nível de responsabilidade de alto nível das empresas, vem a frustração diante do crime, mas isso deve servir de estímulo para reação da sociedade em geral.

A aplicação das melhores práticas de governança nas empresas, tão dependente do comportamento ético dos executivos e donos de negócio, e de leis robustas, é um grande desafio a exigir muita atenção e ação!

 

 

 

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