Estado da Indústria I: Setor Automotivo

Na virada do século, mais precisamente no ano de 2001, foram licenciados no território brasileiro mais de um milhão e seiscentos mil auto veículos, incluindo carros de passeio; comerciais leves; caminhões e ônibus. Desse total os itens importados chegaram a 178.000 unidades, ou seja, 11,1% do total comercializado.

O agito político com a proximidade das eleições e a desvalorização do Real acabou por diminuir a demanda nos dois anos seguintes e, em 2003, as vendas atingiram 1.428.610 veículos significando uma queda acumulada de 10.7%. O segmento de caminhões e ônibus atingiu naquele ano vendas de 90.477 veículos enquanto os importados, fortemente afetados pelo câmbio representaram tão somente 4,9% do total vendido, ou 70.000 unidades.

A partir de 2004, no entanto, o que se vivenciou foi crescimento vertiginoso das vendas no mercado local chegando ao ponto mais alto de volume no ano de 2012 com três milhões e oitocentas mil unidades comercializadas. Um recorde extraordinário e que representou crescimento anual composto de 11,5% ao ano, ou seja, parecia que estávamos na China, não é mesmo? Naquele ano os importados chegaram a quase 800.000 unidades, ou seja, 20,7% do total vendido.

A produção brasileira de veículos acompanhou, mais ou menos, de perto as vendas internas chegando a três milhões e quatrocentas mil unidades. Aqui já afetada não só pelos itens importados oferecidos no país a preços bem competitivos, como devido ao fraco desempenho econômico na Argentina que é de fato o maior mercado para a indústria de veículos nacional. O crescimento da produção médio composto ao ano no período de 2004 a 2012 foi de 8,1%.

Tudo indicava, portanto, que o mercado interno brasileiro, a continuar nesse ritmo de crescimento, estaria deixando para trás muitos dos países desenvolvidos se situando atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia no ano 2020. Esse ambiente de aumento ininterrupto das vendas desencadeou fortes investimentos e “convidou” outras empresas a planejarem construção de fábricas no Brasil.

Na verdade o desempenho do mercado nesse período foi resultado de:

  • Crescimento da economia em grande parte estimulado pelo “boom” das commodities;
  • Diminuição do nível de desemprego;
  • Aumento da renda real da população;
  • Facilidades na obtenção de crediário, e
  • Estimulo do governo que deixou por bom tempo os veículos com taxação de IPI abaixo da usual.

Estaríamos de fato vivenciando uma nova era para a indústria automotiva nacional? O crescimento da demanda continuaria positivo para sempre? Acredito que todos nós fomos iludidos e tomados por otimismo exagerado, pois parte da motivação para vendas maiores todos os anos não tinha relação só com aumento de renda, por exemplo, mas sim por outras questões de estímulo como redução dos impostos, empréstimo de longo prazo e fácil, além do nível de confiança das famílias e dos empresários. Não era para tudo isso, certo?

A política econômica errática do Governo Federal, juntamente com o esfriamento da economia Chinesa e queda na demanda e nos preços de commodities se encarregaram de acabar com o sonho de o Brasil ser o quarto ou terceiro mercado mundial para o setor automotivo.

A partir de 2014 a demanda por veículos novos apresenta queda: menos 7,2% em 2014 versus 2013; 26,6% negativos em 2015 (venda total de 2,6 milhões de unidades) e nesse ano de 2016 os dados da Anfavea – Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores – indicam no primeiro semestre vendas abaixo de um milhão de unidades o que representa, até agora, diminuição dramática de 25,4% comparativamente ao primeiro semestre de 2015.

A produção local de veículos tem acompanhado a queda da demanda, porém devido à desvalorização da moeda; de leve recuperação da economia Argentina e falta de competitividade dos itens importados aqui a situação é “menos ruim”. A produção no primeiro semestre de 2016 foi de 1,6 milhões de veículos significando queda de 21,2% versus os primeiros seis meses de 2015.

Lamentavelmente esse ritmo descendente na venda e produção de veículos no Brasil acarretou demissão de pessoas – e eu acho que ainda não fizeram todo o corte necessário – além de enfraquecimento da cadeia de fornecedores de peças e serviços locais – as empresas nacionais de pequeno e médio porte. São tempos difíceis e muitas firmas estão desamparadas e amargando falência, fechamento de portas ou recuperação judicial – as antigas concordatas.

A situação dramática no setor automotivo local, no entanto, traz um desafio interessante: é preciso melhorar a gestão, buscando novas práticas no chão de fábrica; tratar do desenvolvimento e retenção de talentos; promover inovação nos produtos e processos; melhorar a produtividade nos escritórios e descobrir novos mercados fora do país.

De todo modo a recuperação forte da demanda, ainda que haja maior confiança das famílias e dos empresários, vai levar tempo no segmento automotivo e teremos de conviver com capacidade produtiva ociosa acima do desejável por ao menos de três a quatro anos. É isso que pode ser prognosticado no momento.

Bons negócios!!

 

 

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