A balança comercial brasileira: história e atualidade

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No meio da avalanche de más notícias sobre a economia brasileira divulgadas nos últimos anos, destoam os bons dados registrados na balança comercial com saldos favoráveis, ou seja, as exportações superando as importações consistentemente desde junho de 2015.

Nesse ano de 2016 os números acumulados até agosto mostram as exportações superando 123 bilhões de dólares norte americanos enquanto as importações atingiram 91 bilhões, então tivemos em oito meses um superávit de 32 bilhões de dólares. Comparativamente ao mesmo período do ano passado, que registrou superávit de 7 bilhões, a diferença é favorável em 25 bilhões!! Excelente resultado.

Gostaria, no entanto, de listar alguns pontos que de certa forma tiram parte do brilho desses números:

  • As exportações acumuladas em US$ caíram 3,7% versus o ano de 2015;
  • As importações caíram muito mais -24,7%- em razão da recessão econômica e também do encarecimento dos produtos importados devido à desvalorização do real;
  • As commodities que sustentam as vendas externas, de modo geral, tiveram quedas nos preços – soja -3.7%; minério de ferro -22,8%; carnes de frango e boi -9%; celulose -10,4% e café -3%. O preço médio do açúcar decresceu 0,9% na média de janeiro/agosto 2016 versus mesmo período de 2015;

Resumindo, ainda que os volumes das commodities citadas tenham aumentado em 2016 comparativamente ao ano passado os preços internacionais abateram significativamente a geração de dólares aos exportadores. E mais! Não houve mudança significativa no perfil dos itens exportados com os produtos básicos representando 46% do total, os semimanufaturados 14,8% e os manufaturados 31,2%. O Brasil continua extremamente dependente do desempenho das commodities para fechar as contas.

Historicamente não nos distanciamos muito do que já acontecia no século XX quando o café reinava no comércio exterior e nossa evolução desde então ainda não mudou significativamente o perfil das exportações com produtos de maior valor agregado e mais tecnologia.

No ano passado com a queda da produção nacional (PIB) em quase 4%, o Brasil foi deslocado de sétima economia em tamanho no mundo para a nona posição sendo ultrapassado por India e Itália. Claramente a diminuição do mercado interno não foi compensada por vendas mais ativas a outros países – exportações – até porque de modo geral os mercados internacionais estiveram retraídos. Tivesse nosso país melhor perfil dos itens exportáveis – principalmente manufaturados – a crise econômica seria mitigada.

Na verdade historicamente o Brasil tem papel menor nas transações comerciais do mundo e de longe sua economia é voltada para o mercado interno não tirando proveito, portanto do fato de o PIB ser o nono maior do globo.

Os dados divulgados pelo Banco Mundial sobre a participação do comércio exterior nas principais economias mundiais que aqui destaco na média dos últimos cinco anos mostram:

Exportações mais Importações / PIB – Coreia do Sul 50%; Alemanha 45%; Canadá 31%; Reino Unido 30%; França 30%; Itália 30%; Índia 25%; China 25%; Japão 18% e USA 13%.

O México que exportou no ano passado US$381 bilhões registra o comércio exterior (exportações mais importações) como algo ao redor de 32% do PIB. Lógico que a proximidade com os Estados Unidos da América e acordo comercial do Nafta funciona como impulsionador da economia local.

No mesmo período o total de exportações e importações brasileiras sobre o PIB do país representou, em média 11,5%! Estamos atrás! Somos ainda muito voltados para o mercado interno enquanto nossa importância nas vendas para o exterior reside em commodities.

É preciso reconhecer que o Brasil de fato tem vocação no agronegócio e seu imenso território com boas terras para o cultivo e avanço na pesquisa pela Embrapa acabam por fortalecer ainda mais seu papel como “celeiro do mundo”. Nosso mérito, certo? Mas porque não buscamos com mais consistência evoluir no setor de manufaturados e aí deslocar a participação do comércio exterior para algo superior a 20%, por exemplo?

É bom lembrar que no comércio exterior além de se buscar renda em moeda forte através das exportações, as importações trazem valor para a economia local com tecnologia e permitindo concorrência benéfica para com os produtores do país importador. Seria, portanto míope a visão de que só “exportar é o que importa”, como no passado se difundia no Brasil. Precisamos avançar no comércio mundial tanto nas vendas externas como nas compras do exterior gerando emprego e renda; promovendo a economia nacional e o desenvolvimento da tecnologia.

Quais são os fatores históricos e da atualidade que impedem o Brasil de avançar no comércio exterior de modo consistente?

A seguir listo alguns pontos que no meu julgamento exigem reflexão e principalmente políticas de Estado sólidas com participação do empresariado e das classes trabalhadoras:

  • É preciso cuidar e celebrar novos acordos comerciais com países e regiões, além de preservar o Mercosul;
  • O impacto do “alto” custo Brasil necessita de ser mitigado, pois a energia é cara; a logística e infraestrutura não ajudam; a mão de obra custa acima da média dos países menos desenvolvidos considerando os encargos sociais; a taxa cambial é volátil e a carga tributária pune as exportações.
  • O empresário precisa colocar em sua agenda a busca de crescimento dos negócios por meio das exportações e fazer acordos para desenvolver tecnologias com produtores mundo afora.

O Brasil como nona economia do mundo não pode se acomodar e continuar tendo papel minúsculo no comércio exterior!

 

 

 

 

 

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