Verticalização das operações; ou não?

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Desde o ano de 2012, a Apple tem se posicionado em primeiro lugar como a companhia de maior valor de mercado no Mundo. No segundo trimestre de 2015, segundo publicação do Financial Times, a empresa valia 722,6 bilhões de dólares norte americanos. A Microsoft ficou em segundo lugar com um valor estimado em 357 bilhões, ou seja, menos da metade da Apple.

De fato é notório o sucesso empresarial da Apple cuja explicação reside no incansável esforço da inovação tecnológica, da oferta de produtos que caem no gosto dos consumidores, do desenho e praticidade da linha de produtos e de marca fortíssima.

A empresa está apoiada em complexo modelo de negócios, seja do ponto de vista de desenvolvimento de produto como de sua fabricação e ainda do posicionamento mercadológico e da distribuição.

Nesse texto cabe observar que a Apple revolucionou o modo de fazer negócios com a terceirização de sua produção. O modelo tem funcionado muito bem e faz todo o sentido quando analisamos algumas características da estratégia do negócio.

Pela ordem a empresa, em primeiro lugar, dá absoluta importância à inovação de produto e tecnologia e transformou-se numa máquina de “inventar” novidades. Em segundo lugar o ciclo de vida de seus produtos é extremamente curto e finalmente há cuidado com a qualidade. É bom lembrar que o produto Apple está sempre posicionado com preço “premium”, ou seja, o consumidor está disposto a pagar o valor do produto na loja o que permite margens de lucro bem generosas.

Para atender aos princípios acima indicados a Apple desenvolveu um fornecedor – fabricante, no caso a Chinesa Foxconn, que consegue responder a: a) flexibilidade na produção para mudanças rápidas de programa e demanda; b) adapta ferramental e ajusta a manufatura em tempo relativamente curto, permitindo rápida transformação de um novo produto do papel para a realidade física; c) tem qualidade em padrão suficiente para dar confiança ao consumidor e; d) os custos são competitivos devido à localização de fábricas na Ásia, principalmente.

É possível afirmar, portanto que no caso da Apple o modelo de terceirização da fabricação funciona perfeitamente. É impossível imaginar outro modo de a empresa fazer negócios, certo?

Claro está que alguns cuidados devem ser tomados, sobretudo quanto à propriedade intelectual e as práticas das condições de trabalho da mão de obra do fornecedor, pontos que podem trazer dores de cabeça à Apple.  Imagino que a empresa tem lá seus contratos bem celebrados com a parte terceira e ainda monitora regularmente o chão de fábrica do fornecedor.

Outro exemplo bem sucedido de terceirização das operações é o da Nike. A empresa número um no mundo de calçados e roupas esportivos identificou nessa alternativa um jeito de assegurar lucratividade, buscando parceiros localizados em regiões de baixo custo, uma vez que o fator mão de obra no total do custo do produto é relevante.

Aqui também vale a preocupação com as questões relativas à propriedade intelectual do desenho de produto e das condições do trabalhador naquelas regiões (China, Indonésia e Vietnam, principalmente).

Uma das vantagens na terceirização das operações reside na menor necessidade de investimentos em máquinas e equipamentos. Já o monitoramento de perto das operações do terceiro, como a Nike faz, exige recursos de pessoas qualificadas e localizadas nas proximidades das plantas industriais.

No setor automobilístico o modelo de produção, desde muito tempo, é misto. Isso quer dizer que as fábricas de automóveis são verdadeiras linhas de montagem juntando as peças que foram desenhadas quando do desenvolvimento do veículo. Os motores, por outro lado, são na maioria dos casos montados nas plantas das montadoras e até algumas peças estampadas também são produzidas. A pintura, até por questões logísticas, também ocorre na planta da montadora.  A escala de produção ajuda nesse modelo, e uma rede de sistemistas e outras empresas do setor de autopeças relativamente competitivas atuam como fábricas terceiras.

O que a montadora de fato não abre mão é de criar o produto tanto do ponto de vista de design e, sobretudo de engenharia avaliando previamente o desempenho e a qualidade do produto estabelecendo padrões que devem ser seguidos pelos fornecedores ao longo da vida do produto, que em geral, equivale a quatro/cinco anos sujeito a algumas mudanças de desenho exterior, ou o famoso “face lift”.

No modelo do setor automobilístico a necessidade de investimento em capital fixo (máquinas, equipamentos e ferramentais) é grande, porém a amortização do valor investido é possível devido à vida útil do projeto/produto.

Outra tendência na área de operações reside na terceirização da área de logística. Hoje é possível encontrarmos empresas terceiras nas plantas dos clientes cuidando do manuseio dos componentes, seu armazenamento e distribuição ao mercado. Há casos inclusive de depósitos de produtos acabados localizados em armazéns de terceiros. Funciona!

Para concluir na definição do modelo da produção do produto internamente ou fora, ou ainda parcialmente dentro de casa, não há certo ou errado. O importante é que a opção tenha alinhamento com a estratégia do negócio e suas características, quer dizer, da tecnologia e ciclo de vida do produto, do posicionamento do preço no mercado – premium? – dos custos dos fatores de produção (mão de obra, por exemplo), da distribuição logística ao mercado e por aí vai.

 

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