O que falam os números e o que dizem os gestores (parte II – B2C)

Volto agora a relatar nesta parte II de “O que falam os números…” os negócios B2C – business to consumer –; os resultados demonstrados por empresas brasileiras no ano passado e que também têm ações negociadas em Bolsa de Valores, ou seja, são de capital aberto. O segmento é o têxtil/varejo/vestuário. São quatro as empresas objeto de análise em ordem alfabética de identificação no mercado acionário: Cia. Hering, Guararapes, Lojas Renner e Marisa.

Setor Têxtil/Varejo/Vestuário – Contexto

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é uma entidade respeitável e que presta relevantes serviços utilizando bons métodos para medir desde evolução de preços internos (inflação) como também produção nacional. Dentre esses trabalhos, que estão disponíveis no site www.ibge.org.br, é possível encontrar o PMC (Pesquisa Mensal do Comércio), que avalia o desempenho do comércio varejista em todo o território nacional.

O PMC abarca dez grupos de atividade, a saber: combustíveis e lubrificantes; supermercados, hipermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo; tecidos, vestuário e calçados; móveis e eletrodomésticos; artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos; equipamentos e materiais para escritório, informática e de comunicação; livros, jornais, revistas e papelaria; outros artigos de uso pessoal e doméstico; veículos e motocicletas, partes e peças; material de construção. Desses, somente os dois últimos setores são considerados um misto de atacado e varejo, enquanto os oito restantes são claramente identificados como “puro varejo”.

Pois bem… E o que diz o PMC do ano de 2016 no conceito de evolução do volume? Veja bem, volume – e não receita em reais – das vendas de cada uma das dez atividades, certo? Aí vai:

  • É dramático, mas, na verdade, pelos cálculos do IBGE, nenhum dos setores apresentou evolução positiva de volume relativamente ao ano de 2015. Complicado!
  • Na média geral, as dez atividades compuseram variação negativa de volume – quer dizer, queda real de vendas – de 8,7%
  • A atividade que mais se aproximou do volume de negócios registrado em 2015 foi o de artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria, com variação negativa de 2,1%
  • Os piores desempenhos em volume de vendas, no ano de 2016 versus 2015 foram: livros, jornais, revistas e papelaria, com -16,1%, e em seguida com -14,0% ficou posicionada a atividade de veículos e motos, partes e peças
  • A atividade relativa a negócios de tecidos, vestuário e calçados amargou queda de volume de vendas de 10,9% em 2016, comparativamente ao ano anterior.

Resumindo: 2016 foi um ano ruim para o varejo brasileiro, em geral.

Outro ponto interessante no B2C – business to consumer –  é observar que uma parte das vendas está migrando para o comércio eletrônico e conforme a empresa Ebit, que atua com serviços na área de inteligência competitiva para o e-commerce, em 2016, embora não tenha acontecido crescimento importante: em reais, o faturamento cresceu 7,4% versus inflação interna de 6,3% – IPCA medido pelo IBGE. As vendas alcançaram 44,4 bilhões de reais e hoje quase ¼ da população brasileira, ou seja, 48 milhões de consumidores no território nacional são considerados ativos. Outro dado: o setor de moda e acessórios está em primeiro lugar no volume de pedidos, com 13,6% do total registrado. Já em valor, devido ao baixo valor médio de compra, “moda e acessórios” representou 5,6% do total faturado.

Vamos ao desempenho empresa por empresa:

  • Hering

A empresa, com sede em Santa Catarina e que oferece produtos no varejo com as marcas/lojas Dzarm, Hering, Hering Kids e PUC, alcançou vendas de 1.475 milhões de reais, com queda de 7,2% em comparação com 2015. O lucro bruto representou 39,4% das vendas líquidas praticamente em linha com o nível do ano anterior. Isso foi bom! A margem EBITDA apresentou leve queda de 16,5% em 2015 para 14,1% em 2016, e o lucro líquido chegou próximo a 200 milhões de reais, significando uma diminuição em valor absoluto de 29% em relação ao ano de 2015. De fato, a queda das vendas afetou o resultado financeiro final.

A Cia. Hering é bem capitalizada e seu balanço revela praticamente inexistência de empréstimos e financiamentos (total de 27 milhões de reais). O índice de liquidez corrente, medido pela relação ativo corrente/passivo corrente, é exagerado, muito exagerado: 3,66!

O modelo de negócio da Hering inclui cerca de 834 lojas físicas, das quais 88 são próprias e as demais são franquias. A companhia menciona atuação no comércio eletrônico, mas não revela quanto vendeu neste canal.

A dúvida é: qual o plano de crescimento? Quais são as ambições para o grupo quanto ao futuro do negócio? Qual o propósito de manter nível de liquidez tão alto?

Talvez esta falta de perspectiva tenha afetado a valorização modesta das ações da Cia. Hering em 2016 (+6,4%) relativamente às outras três empresas aqui selecionadas.

  • Guararapes

O grupo que contempla as Lojas Riachuelo produz em suas fábricas 32,5% do que vende nas lojas. No ano de 2016 foram abertas seis novas lojas, elevando a rede para 291 pontos de venda.

A receita líquida da Guararapes em 2016 foi de 4.257 milhões de reais, sinalizando crescimento nominal de 4,6%. A empresa diz que no conceito “mesmas lojas” houve queda de 0,5% nas vendas. Não tão mal se considerarmos que o IBGE indicou diminuição de 10,9% no setor têxtil/varejo/vestuário, certo?

O lucro bruto de 50,9% sobre as vendas ficou praticamente igual ao de 2015 (51,1%), ou seja a empresa conseguiu equilibrar evolução de custos com preços/mix de vendas. Por outro lado a margem EBITDA foi de 17% versus 18,8% em 2015. Já o lucro líquido em 2016 foi de 318 milhões de reais, com queda de 9,3% em relação ao ano anterior.

Quanto ao nível de endividamento, aconteceu aumento da conta “empréstimos e financiamentos” em 437 milhões de reais ou 28,6% acima do saldo da conta em dezembro/2015. Por outro lado as contas mais líquidas do ativo – caixa e aplicações em títulos mobiliários – cresceram em 364 milhões equilibrando, de certo modo a situação financeira do negócio.

As ações do grupo Guararapes evoluíram positivamente 32,2% ou pouco abaixo do desempenho do índice geral IBOVESPA, que foi de 38,9% no ano passado.

  • Lojas Renner

Uma das maiores empresas no setor de varejo/vestuário no Brasil, as Lojas Renner, como listada na Bolsa de Valores, compreendem três canais de vendas/produtos: Renner, Camicado e YouCom, sendo que a Renner representou 92,5% do total vendido em 2016. O crescimento nominal da venda foi de 5% atingindo R$ 5.722 milhões e no conceito “mesmas lojas” houve queda de 0,2%. Está bom, dado o ambiente ruim para negócios no segmento, sem dúvida.

O lucro bruto representou 55,7% da receita líquida e foi até ligeiramente melhor que o de 2015 (54,8%). A margem EBITDA é a melhor entre as quatro empresas que fazem parte deste texto (23,4%).

Diferentemente de outras empresas do setor, as Lojas Renner investiram quase o mesmo montante de 2015 (513 milhões de reais) tanto para ampliação do número de lojas como também numa questão relevante no setor: sistemas de gestão comercial. O corpo diretivo menciona atuação no comércio eletrônico, mas não apresenta maiores detalhes. O endividamento com empréstimos e financiamentos está alinhado no total (curto e longo prazo) com as disponibilidades em caixa e aplicações em títulos mobiliários.

As ações das Lojas Renner foram as que mais se valorizaram das quatro empresas aqui analisadas (+36%).

  • Marisa

A rede de lojas Marisa, que atua no segmento de vestuário feminino, diminuiu o número de pontos de venda em 2016 – fechou onze lojas –, e o faturamento líquido de 2.224 milhões de reais caiu 10,4% comparativamente ao ano de 2015. Já o lucro bruto foi 48,9%, enquanto a margem EBITDA de um só dígito – 8.1% – foi a pior das quatro empresas selecionadas nesta análise.

Importante observar: em 2015 a Marisa teve prejuízo líquido de R$36 milhões, e no ano passado a perda foi de 88 milhões de reais.

É possível observar ao longo do discurso do corpo diretivo que a Marisa precisa encaminhar rapidamente soluções para melhorar o nível de resultados financeiros, inclusive menciona iniciativas de redirecionamento das ações de marketing e posicionamento de produto.

As ações da Marisa em dezembro de 2016 valiam 5,96 reais, significando evolução positiva de 22,9% comparativamente a 2015.

 

Revisão de texto: Virgínia De Biase Vicari

 

 

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