Lucro; geração de caixa; valor e outras questões

No último mês de Agosto duas publicações foram disponibilizadas com estudos sobre desempenho das companhias brasileiras no ano de 2016: Valor 1000 – Maiores Empresas e a Exame Melhores & Maiores da Editora Abril. Esta última tem sido publicada anualmente desde o ano de 1974.

Os estudos adotam diversas métricas para avaliar os negócios e não selecionaram necessariamente as mesmas, embora algumas sejam comuns como: receitas líquidas; lucro líquido; EBITDA e níveis de endividamento e liquidez. Os números publicados de mesma empresa e/ou grupo econômico também divergem em alguns casos. De todo modo vale a pena ler e interpretar os dados, ainda que olhando para o espelho retrovisor, certo?

Em comum a Valor 1000 e a Maiores & Melhores relatam que em 2016 as empresas estudadas reportaram nova queda real das receitas líquidas com pequena recuperação no nível de lucro líquido. Isto quer dizer que os gestores foram, na visão de curto prazo, eficazes em suas ações na busca por melhor resultado financeiro.

A obtenção de lucro líquido mais alto em valor, e em percentual sobre a receita líquida relativamente ao ano de 2015 é bom sinal, mas isto é insuficiente para assegurar que as empresas estejam gerando valor ou que indiquem solidez suficiente para continuarem se expandindo e remunerando adequadamente seus acionistas. Reflita sobre isso!

A unidade de medida – lucro líquido – continua a ser um dos indicadores mais importantes para avaliar o sucesso de uma firma e a própria contabilidade tem sido aperfeiçoada com princípios de contabilização mais atuais e padronizados, o que permite melhor comparação entre empresas do mesmo setor de atividade, por exemplo. Por outro lado outras leituras do desempenho de uma organização empresarial têm surgido, sendo importante destacar:

  • EBITDA: Resultado do negócio antes dos juros, imposto de renda e contribuição social, Depreciação/Exaustão e Amortização. O Ebitda, que tem sido referência principalmente entre as empresas de capital aberto, mede a geração de caixa operacional proveniente exclusivamente do negócio;
  • Geração de Caixa Líquido – muito adotado pelas grandes corporações estadunidenses – o Free Cash Flow – mostra a capacidade de geração de caixa da empresa à frente da mera questão de lucro contábil, afinal sabemos que lucro não necessariamente indica que o negócio está sólido. Já dizia o ícone Jack Welch – CEO da General Electric – “Cash is King”!;
  • VEA – Valor Econômico Adicionado, ou em sua língua de origem – Economic Value Added – É o resultado apurado pela empresa que excede à remuneração mínima exigida pelos proprietários de capital (credores e acionistas). O método de cálculo leva em conta o lucro líquido operacional deduzido de imposto de renda e do custo médio de capital empregado (fixo e de giro).

Segundo os defensores do VEA se uma empresa apura lucro líquido em determinado período, mas insuficiente para remunerar o custo do capital investido há destruição da riqueza dos acionistas. E mais dizem: o lucro somente garante a continuidade de um empreendimento, no médio/longo prazo, se este for superior ao custo de oportunidade do capital investido.

Fica claro com base nesta discussão que há uma gama enorme de indicadores e métricas, na área financeira, que deve ser utilizada para avaliação do desempenho da companhia.

Retornando às publicações de Valor 1000 e Melhores & Maiores, e com base na seleção de quatro segmentos/setores: papel e celulose, alimentos e bebidas/bens de consumo; têxtil/couro e varejo observamos que, embora participem em ambos estudos, as empresas acabaram por ter posicionamento diferente no ranking, até porque as métricas, como dito anteriormente, não são exatamente as mesmas.

  • Varejo: com 24% de EBITDA sobre a receita líquida a Lojas Renner conquistou o primeiro lugar na edição da Valor 1000. A empresa ficou na nona colocação do setor em vendas líquidas. Já na Melhores & Maiores a Lojas Renner ficou em segundo lugar perdendo posição para a RaiaDrogasil, que inclusive foi eleita “empresa do ano” sendo necessário dizer que esta publicação não considerou o EBITDA no cálculo do ranking;
  • Textil/Couro: a Grendene obteve a primeira colocação no segmento com EBITDA sobre venda líquida de 22,4% e liquidez corrente de 9,05 no estudo da Valor 1000. A companhia ficou em segundo lugar na publicação de Melhores & Maiores tendo sido ultrapassada pela fabricante gaúcha de calçados Beira Rio;
  • Alimentos, Bebidas e Bens de consumo: a Ambev obteve a primeira posição e o título de “empresa do ano” na Valor 1000 com EBITDA sobre as vendas líquidas de 45,2%. Foi excelente resultado inclusive se considerar que a segunda colocada do setor registrou EBITDA de 28,2%. Por outro lado na publicação de Melhores & Maiores a Ambev foi segunda colocada;
  • Papel e celulose: destoando das outras empresas acima reportadas aqui a Klabin conquistou a primeira posição tanto na Valor 1000 como na Melhores & Maiores, e o nível de EBITDA apurado fez toda diferença. O EBITDA sobre as vendas líquidas alcançou 27,6% embora a empresa seja a terceira em vendas no segmento, segundo a Valor 1000.

Resumindo: lucro líquido, retorno sobre capital empregado/patrimônio líquido; “free cash flow”; EVA; EBITDA são todas medidas disponíveis para uso dos gestores e que precisam ser levadas em conta para monitorar o desempenho dos negócios de olho em sua perpetuidade e na geração de valor ao acionista/proprietário.

 

Bons negócios!

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