Cuidados necessários para financiar as atividades do negócio

O ano de 2017 começou com ao menos dois bons sinais que não devem ser desprezados em meio a tanto desalento de quase três anos de recessão econômica: a) o comportamento da inflação interna oficial – IPCA do IBGE, e a “inesperada” decisão do Comitê de Política Monetária – Copom – do Banco Central do Brasil em diminuir 0,75 pontos percentuais da taxa de juros Selic que agora está ajustada a 13% ao ano.

O ritmo fraco da atividade econômica brasileira e o elevado índice de desemprego, além da queda na renda real da população são fatores que juntamente com tendência da inflação, no médio prazo, se situar entre 5% e 5,5% devem provocar mais ousadia por parte do Banco Central na definição do patamar de juros Selic no primeiro semestre deste ano. Boas notícias!

Se de fato a taxa Selic romper o nível de dois dígitos para baixo, ou seja, ficar em um dígito é possível imaginar que, o custo do dinheiro para aquelas empresas que precisam de socorro das instituições financeiras,  vai ficar mais barato. Até que enfim, não é?

A queda dos juros no mercado financeiro, no entanto, não são favas contadas e o alto endividamento das empresas ainda serão inibidores para tomadas de novos empréstimos, e é bom que assim seja. Na verdade os gestores devem sempre equilibrar as finanças visando mitigar necessidades de recursos emprestados de bancos, pois na maior parte das vezes a atividade empresarial não gera retorno suficiente para quem paga juros que hoje, na média, atingem 74% ao ano. Um absurdo só possível no Brasil território no qual a especulação financeira suga dinheiro que poderia, e deveria, se destinar às atividades de negócio na indústria, no comércio e no serviço.

A Anefac – Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade – presta enorme serviço ao mercado produzindo mensalmente pesquisa do custo do dinheiro para pessoas físicas e jurídicas, incluindo sugestões para o melhor planejamento financeiro das pessoas e organizações. E é justamente da Anefac que trago alguns dados sobre o último relatório publicado em seu site www.anefac.com.br – referente ao mês de dezembro/2016.

Em dezembro a Anefac apurou que, no geral, houve leve diminuição da taxa de juros no mercado à disposição das firmas (PJ), seja nas transações de capital de giro, como de desconto de duplicatas e ainda nas linhas de conta garantida. Em resumo:

Operação                           Dez/2016                                            Nov/2016

Capital de Giro                 36,39% a.a. ou 2,61% ao mês         37,19% a.a.

Desconto Duplicatas      45,76% a.a. ou 3,19% ao mês          47,47% a.a.

Conta Garantida           163,82% a.a. ou   8,42% ao mês      166,17% a.a.

Média Geral                      74,32% a.a.  ou 4,74% ao mês        75,93% a.a.

Em algumas situações – visite o site da Anefac para mais informações – estes números de dezembro significaram o nível mais baixo de taxa de juros no ano de 2016. E acredito que assim deve continuar caso a taxa Selic seja diminuída ainda mais nos próximos meses.

O cenário levemente mais favorável relativamente ao custo do dinheiro, no entanto, continua recomendando muito zelo do gestor financeiro e dos dirigentes das empresas no sentido de tomar cuidados para financiar as atividades do negócio, em qualquer ramo, sem dúvida.

E que cuidados são esses?

Em primeiro lugar é preciso entender o ciclo operacional do negócio que contempla desde a aquisição de materiais, seu processamento; o pagamento da folha de salários e encargos; os impostos originados das transações até o recebimento do valor da venda da mercadoria e/ou serviço. No comércio este ciclo é mais curto, enquanto na indústria costuma ser mais longo. Os estudiosos reconhecem a necessidade de um montante de capital de giro inicial, mas uma vez encerrado o ciclo e o resultado das vendas se transformando em entrada de caixa este deveria ser suficiente para financiar o novo ciclo que se inicia.

Importante mencionar que a necessidade de capital para fazer frente ao ciclo operacional pode ser financiada por fornecedores, por exemplo, ao invés de simplesmente depender de empréstimo bancário, certo?

O equilíbrio do ciclo operacional inicial deve ser preservado o que exige, por exemplo, atenção nos preços dos fatores de produção (custo de matéria prima, salários, preço de venda da mercadoria) e monitoramento diário das entradas e saídas de caixa, definição de política de estoque adequada e atenção à saúde financeira de clientes para mitigar inadimplência destes.

Outro ponto de atenção deve ser a sazonalidade do tipo de negócio a que a firma está dedicada. Imagine, por exemplo, loja de brinquedos que sabidamente deve construir estoques para fazer frente a vendas mais elevadas no dia das crianças e ainda nas festas natalinas de final de ano. Neste caso a exigência de capital de giro será mais intensa naqueles períodos do ano.

Vale também comentar que a empresa deve buscar fontes de financiamento mais acessíveis, ou seja, com taxas de juros menores entre as instituições financeiras e a modalidade, pois como vimos pelos números da pesquisa Anefac as operações ditas como “capital de giro” são bem mais baratas do que as de “conta garantida”.

Conclusão: independente da tendência da taxa de juros, e é bom que siga em queda, a companhia deve tomar muito cuidado no modo como financia suas atividades, mitigando empréstimos no mercado financeiro e respeitando o ciclo operacional do setor no qual participa.

Bons negócios!!

P.S. O financiamento para investimento em ativo fixo e/ou bens de capital merece outra discussão não sendo, portanto objeto deste texto.

 

 

 

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