A desvalorização do Real nos últimos dois anos e o retorno da taxa cambial hoje ao patamar médio de R$3,00/U$1.00 – que equivale à cotação em meados de 2004 – nos faz pensar que temos agora uma boa oportunidade para alavancar a indústria manufatureira local com maior participação no mercado interno e ainda tornando-a competitiva na exportação. É isso mesmo? É possível?
Não devemos nos enganar com o atual nível da moeda, embora seja preciso reconhecer que a tendência traz certo alívio para a fábrica brasileira. Acontece que a gestão da produção precisa ainda avançar mais, pois a inflação que tivemos nos últimos dez anos – alcançou pelo IPCA quase 70% -; os repasses de supostos ganhos de produtividade à remuneração da mão de obra e a elevação dos preços de matérias primas tiveram o efeito nocivo de aumento do custo industrial, por certo.
Para que possamos expandir os negócios com exportações de itens manufaturados além das questões de tecnologia; de inovação de produto e qualidade necessitamos fabricar a custos mais baixos e aí chamo a atenção dos gestores de chão de fábrica para a adoção sistemática de práticas que façam diferença no resultado final.
Em meados dos anos 1980, portanto a mais de trinta anos o físico Israelense Eliyahu Goldratt lançou com enorme êxito no livro “A Meta” seus estudos aos quais designou como de “Teoria das Restrições”. A abordagem é direcionada à otimização do processo produtivo permitindo que o negócio ganhe dinheiro ao tratar de modo efetivo as restrições que impedem o desempenho ideal.
Goldratt, com sua visão sistêmica e de processos, entendia que a restrição é como um elo de uma corrente mais fragilizado que compromete o “output” final ou o limita. É preciso então identifica-lo; atuar para mitiga-lo ou elimina-lo e por fim alinhar os recursos do negócio ao nível estabelecido pela restrição ou “gargalo”.
Os estudiosos reportam que três questões básicas devem sustentar a adoção da “Teoria das Restrições”: o que mudar?; como mudar?e como motivar a mudança?
São cinco os passos que compõe o ciclo da metodologia visando atingir desempenho superior:
- Identificação das restrições do sistema – se internas citadas como as que colocam a capacidade da fábrica ou de seu gargalo abaixo da demanda, ou externas quando a demanda situa-se abaixo da capacidade instalada – aí uma questão de mercado;
- Utilizar da melhor forma possível as restrições do sistema – nesse passo procura-se maximizar ganhos nos gargalos se a restrição for interna ou então entender que o ganho está limitado à demanda do mercado no caso em que a restrição é externa;
- Nivelar os recursos – essa é uma questão muito importante, pois chama a atenção dos gestores para alinhar os recursos como itens em estoque (inventário) e despesas operacionais à capacidade identificada no gargalo ou restrição. É típico foco em eliminação de desperdício;
- Elevar a capacidade da restrição – isso quer dizer tomar decisão sobre a restrição. Exemplo – caso a restrição seja interna e identificada como falta de capacidade de determinado equipamento ou célula de trabalho avaliar investimento em sua ampliação ou caso se observe oportunidade na diminuição de tempo perdido no “set up” ou preparo de máquina atuar sobre ele. Outro exemplo é eventual subcontratação da produção com terceiros para reduzir a restrição interna. Quando a restrição é externa ou de mercado cabe questionar quais alternativas podem ser tomadas na atividade comercial como: lançamento de novo produto; realinhamento de preços; promoções…
- Retornar ao passo 1 – Goldratt observa que os gestores precisam ter a visão de melhoria contínua evitando a inércia retornando ao passo 1 na busca da identificação de outras restrições ou gargalos ao longo do processo de manufatura.
O método parece complexo, mas de fato não é! Primeiramente é necessário entender as atividades fabris como interconectadas e parte de um fluxo contínuo. Em segundo lugar com questionamentos; observações e medindo o fluxo é possível entender onde estão as restrições que limitam ou inibem o desempenho afetando o objetivo principal do negócio que é ganhar dinheiro e finalmente tomar decisões no sentido de mitigar os gargalos.
A tomada de decisão deve ser correspondida com boa execução e isso depende da motivação das pessoas envolvidas na mudança. Há recomendação para avaliar os benefícios da medida comparativamente aos malefícios de não toma-la e aí, segundo os especialistas, a adoção da mudança terá o apoio interno indispensável ao sucesso.
A aplicação de método e mais “ciência” no chão de fábrica como no caso da Teoria das Restrições pode ser um diferencial importante para a fábrica brasileira dar um salto de competitividade aproveitando o momento do câmbio a favor.
Bons negócios!!