A produtividade do trabalho; um grande desafio para o Brasil.

A discussão sobre a necessidade de os empreendimentos no Brasil progredirem a taxas mais altas de produtividade vis a vis outros países emergentes não é recente.

Já vivenciamos muito o discurso de “década perdida” e isso vem lá do início dos anos 1980. Pouco parece ter mudado, pois segundo publicado na revista Conjuntura Econômica da FGV – edição de dezembro/2019 – em 37 anos (de 1982 a 2018) a produtividade do trabalho por hora trabalhada cresceu no Brasil, na média, 0,4% ao ano enquanto no EUA a evolução foi de 1,6% anuais. Isto significa dizer que numa base 100 ao final de 37 anos o índice brasileiro seria de 115,9 enquanto do estadunidense registraria 179,9.

Há razões inúmeras para este pífio desempenho:

  • Constantes crises econômicas e políticas;
  • Avanço modesto na educação e formação da mão de obra;
  • O baixo crescimento médio anual do PIB nas últimas décadas;
  • Progresso lento na adoção de novas tecnologias;
  • Baixa economia de escala, embora nosso mercado interno tenha tamanho razoável. Neste caso falta maior presença da empresa nacional no comércio exterior global. Você concorda?

Esta situação desconfortável tem preocupado estudiosos e governos e a melhor mostra disso têm sido as iniciativas de criação das câmaras setoriais nos anos 90, da modernização da lei da informática, e até a reorganização do antigo Ministério da Fazenda que agora chamado de Ministério da Economia tem um secretaria chamada de “Secretaria Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade:

Vale destacar aqui que a Fundação Getúlio Vargas lançou no mês passado o site “Observatório da Produtividade” – ibre.fgv.br/observatório-produtividade. Faça uma visita. A ideia é divulgar estudos, opiniões e debates sobre a produtividade no Brasil incluindo indicadores trimestrais de mensuração. Este arcabouço de estudos e dados deve ajudar inclusive na formulação de políticas públicas. Ótima iniciativa, sem dúvida.

Está bem… muita gente tem preocupação de que aumento de produtividade resulta, ou pode resultar, em diminuição de postos de trabalho. É preciso reconhecer este efeito colateral, claro. Afinal produtividade significa fazer mais com menos recursos, incluindo mão de obra. Ou então…fazer mais com os mesmos recursos já empregados.

Como anda a situação do emprego no Brasil?

Observe abaixo o nível de desocupação da força de trabalho registrado nos últimos anos, os quais como sabemos foi severamente impactado pelo maior período de recessão econômica da história do país:

Lamentavelmente o número de pessoas ocupadas, embora tenha crescido de 90,2 milhões em 2016 para 94,4 milhões no ano passado, fica aquém do desejável. Bem aquém.

De fato o desemprego tem sido generalizado afetando todos os setores que compõe o cálculo do PIB: agropecuária, indústria e comércio/serviços. Hoje são quase 12 milhões de pessoas com idade para trabalhar, mas que estão desocupadas. Isto significa dois dígitos na taxa de desemprego, ou seja, 11,2% no trimestre setembro/novembro 2019, segundo o IBGE.

Note no quadro que segue como se comportou o número de pessoas ocupadas por setor de atividade econômica, que compõe o cálculo da formação do PIB nacional:

Como dito anteriormente o número de pessoas ocupadas aumentou no total, porém abaixo do desejável e necessário. Por setor tivemos no período analisado:

  • a agropecuária com diminuição do emprego que veremos tratar-se de maior produtividade;
  • na construção houve redução significativa no nível de emprego decorrente da queda acentuada da atividade econômica;
  • já enquanto outros segmentos cresceram pouco ao longo dos últimos anos e a indústria e comércio ficaram estagnados.

E ainda iremos buscar mais produtividade?

Sim, para que o Brasil cresça de modo sustentável expandindo negócios também no exterior é preciso melhorar o nível de produtividade do trabalho, sem dúvida!

Continuemos…lembrando que os dados a seguir apresentados e discutidos estão disponíveis no Observatório da Produtividade da FGV.

Qual foi a evolução da produtividade do trabalho no Brasil relativamente aos últimos anos durante os quais vivenciamos a crise econômica mais longa da história recente?

Resposta: não houve avanço, exceto no setor da agropecuária. Faz sentido? Ou seja isto reforça a realidade de que o agronegócio é um setor competitivo globalmente? Você concorda?

Resumindo:

  • No total a produtividade do trabalho nacional manteve o nível ao longo da série de sete anos (de 2013 a 2019) – algo como R$30,00;
  • O índice de produtividade de serviços (inclui comércio) teve queda consistente ano a ano;
  • Já a indústria “se segurou” em R$30,50, na média
  • A agropecuária evoluiu favoravelmente,  na média, 6% ao ano saindo de R$12,80 em 2013 para R$18,40 em 2019.
  • O baixo, ou inexistente, crescimento da produtividade brasileira é razão direta de massa importante de pessoas ocupadas no segmento de serviços. Aqui há maior informalidade do emprego, com baixa qualificação das pessoas e/ou desempenho da gestão também discutível. Tudo contribui para uma baixa produtividade num setor que significou em 2017, conforme dados da revista Conjuntura Econômica, 68% da população ocupada. Fechando os 100% das pessoas ocupadas naquele ano tivemos: 19% na indústria (inclui na média 8% no setor da construção) e 13% na agropecuária. Só para detalhar um pouco mais: a indústria de média-baixa tecnologia responde por 6,5% das pessoas ocupadas enquanto a manufatura de média e média-alta tecnologia corresponde a 1,9% da população ocupada cada uma.

Indo um pouco mais fundo no segmento industrial é importante observar que o baixo desempenho da produtividade no período2013-2019 deveu-se à indústria de transformação e outros serviços industriais. A evolução, bastante favorável, do setor extrativo mineral é boa notícia, porém tem pouco efeito no geral devido ao baixo contingente de pessoas empregado – cerca de 0,2% do total de pessoas ocupadas no trabalho em nosso país -. De outro modo a construção, cuja população ocupada representa quase 8% do total, perdeu produtividade.

É urgente melhorarmos o desempenho da mão de obra brasileira, pois sem ganhos de produtividade expressivos continuaremos a conviver com baixa renda média per capita até porque os setores de maior geração de emprego são justamente os que pior pagam.

Outro fator relevante a exigir desempenho superior de produtividade é o de tornar o país mais competitivo no comercio exterior. Simples! De um lado expandindo as exportações e de outro permitindo o fortalecimento da indústria nacional, e sem subsídios, o suficiente para torna-la competitiva a enfrentar os produtos fabricados fora do Brasil.

É certo que falarmos de aumento de produtividade da força de trabalho num momento de nível alto de desemprego soa politicamente incorreto, porém no médio prazo o avanço só trará benefícios num ciclo virtuoso de geração de trabalho e renda mais nobres, por certo.

Finalmente é recomendável o acompanhamento das métricas de produtividade que serão divulgados ao longo do tempo pelo IBRE/FGV.

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